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terça-feira, 21 de outubro de 2008

Diálogo histórico.




James Bond: "Espera que eu fale?"

Goldfinger: "Não, Sr. Bond. Eu espero que morra!"

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Adendo ao Relatório da Apresentação.


Acréscimo ao relatório do Dia 30 de agosto de 2008.



Conforme o relatório citado, o grupo deveria apresentar o vídeo e caderno de atividades confeccionados, conforme o tema por eles pensado e materializado nas mídias referidas.


O assunto: A Filosofia como Instrumento do Autoritarismo.




Na data de 20 de junho de 2008, os integrantes imbuídos do espírito, executaram a tarefa. Aguardando o momento oportuno, as pessoas envolvidas no projeto esperavam comunicar a notícia de sucesso ao idealizador da proposta da formulação do vídeo e do caderno.




Com a chegada do dia 30 de agosto a oportunidade esboçou mostrar sua face. Todavia, não tinha sido desta fez que os heróis desse empreendimento tiveram a chance de entregar os resultados. Pelo contrário, deveria ser publicada nos blogs a narrativa (vide julianakureke.blogspot.com e raketenpanzerbuchse.blogspot.com para saber a exposição dos outros integrantes), bem como a trupe deveria apresentar em mais um lugar.




Lembrando de conversa anterior com o professor, os membros da equipe sabiam que 1) ele queria que fosse em lugar que não fosse a PUC-PR, e 2) que ele gostaria que fosse em um lugar inusitado, como uma sinagoga.




Contatos anteriores às novas atribuições já tinham sido tentados com instituições de ensino e, também, as religiosas, mas por (in)disponibilidade de pessoal para assistir as apresentações todas as investidas redundaram em fracasso.




Porém com a urgência de cumprir o dever, foi-se feita nova tentativa com aqueles lugares que antes haviam recusado. Entretanto, a sorte ao lado de nossos combatentes revelou sua face e, assim, eles tinham uma data para finalmente completar com total sucesso a campanha, 03 de setembro de 2008 (um grupo de estudo bíblico, protestante, com média etária de mais de 25 anos, composto basicamente por casais).




Uma nova tática foi divisada, o grupo deixaria as apresentações e explanações para o final. Chegaria já em plena exposição do vídeo com as devidas intervenções ao fim de cada etapa do aparato áudio-visual. A estratégia global mostrou seus frutos, pois após um momento inicial de choque, a platéia se viu imersa na atividade.


A diferença quanto ao ocorrido na turma de Sociologia (reportada anteriormente), foi a interação após a apresentação, perguntas, dúvidas, questionamentos...




A operação foi um sucesso. No dia 20 de setembro a trupe obteve a aguardada chance de comunicar, em sala, ao professor os resultados obtidos. Os colegas se mostraram respeitosos e interessados. O vídeo confeccionado para ilustrar o relato na aula impactou conforme o pretendido. Os aliados nesse emprendimento finalmente puderam declarar encerrado os eventos nesse teatro operacional.




A pergunta que fica é: será que o poder de combate desse material (o vídeo, o caderno e a performance dos integrantes) finalmente encontrará o caminho da estocagem ou ainda há mais batalhas a serem travadas?

Rambo!



Para não perder o jeito, citação do Rambo (é só achar no trailer):

"Viva por nada ou morra por algo."

sábado, 30 de agosto de 2008

Política de Capa e Espada



1 INTRODUÇÃO.

A temática do presente artigo está em como uma obra cinematográfica pode ajudar a entender uma época passada. Para lançar uma luz sobre a temática da dinâmica social do século XVII, bem como a criação de personagens de ficção pode ajudar a entender a operacionalidade de alguns personagens no fluxo histórico. O real ponto objetivado é mostrar os fatos e idéias relacionadas para que com a apreensão dos dados as pessoas possam entender o percurso histórico.
Um dos pontos constantes é a revisão de atos tidos, pela História, como políticos. Cotejando com ensinamentos filosóficos para a obtenção do poder e manutenção de um Estado. Em linhas gerais, demonstrar a importância dos eventos estudados, e da própria Filosofia, estão na ordem ao vislumbrar o filme, com a devida sombra do livro que deu origem à estória.
O filme: OS TRÊS MOSQUETEIROS (The Three Musketeers, AUS/UK/USA 1993). Direção de Stephen Herek. Elenco: Charlie Sheen, Kiefer Sutherland, Chris O’ Donnell. 105 min.


2 A figura do cardeal richelieu.

A primeira pergunta, para aqueles pouco familiares com a linha histórica de poder da França, e também daquela sobre os três mosqueteiros, seria “quem é o cardeal mencionado no título deste ponto?”.
O Cardeal é indivíduo chave nos três pilares do presente artigo (fato histórico, filme e livro). No estudo dos eventos reais, ele foi o principal articulador e organizador da monarquia francesa ruma ao Absolutismo. Desempenhou suas funções de maneira devota e, assim, foi reconhecido pela casa reinante. Por seus atos uma dinastia obteve o poder e o país recebeu seus contornos.
Na imaginação do autor francês, muito das características do Richelieu histórico é mantido. Mostrado como alguém comprometido com o seu país, tenta com seus atos se pautar no que crê ser o mais benéfico para o Estado e capaz de gerar uma solidez nacional centrada na figura do monarca. Nesta mídia, ele não é pintado com o espectro extremo de preto ou branco, mas sim o cinza de um sujeito com uma agenda em mente, em que o ponderar de alternativas leva em conta um fim.
Já na ficção mais moderna ele é um dos personagens principais, o antagonista. São características, tanto na esfera literária como na visual, a de governante poderoso, frio, calculista, dominador, e ambicioso, que ofusca, sempre que a oportunidade surge, o ingênuo rei.
Como a ótica do parágrafo anterior simplifica o religioso, o resultado é simples este foi feito para que o espectador o odeie. Contudo, o histórico e o literário agem de forma a sua visão de mundo se igualar à metáfora do caleidoscópio, não de fala em filtro de ótica, mas sim em prisma de ideologias. O que emerge para aquele que já ouviu máximas de política é se “os fins justificam os meios” cabem ao eixo de condução dele. Será que Richelieu leu Maquiavel? Provavelmente sim, ele além de estadista era um estudioso e as evidências são claras ou as conhecidências são absurdas (de tão similares os nortes adotados).
A sociedade do século XVII passava de terras com um lorde que ditava as leis para um governante que monopolizava o uso da violência. A figura dos senhores locais desvanecia para a de nobres na corte de um monarca. E este resultado era o objetivado pelo homem de Deus que o item presente trata. Ao analisar como a França fez a transição deste período parece seguir os passos estabelecidos por Maquiavel, os resultados foram a unificação da legislação, a direção restou nacional (inclusive quanto a religião), a diplomacia (e a guerra) recebeu foco (limitar a influência dos Habsburgo na Europa) e o poder estava centralizado na figura do príncipe/rei.
Mesmo com todo o revelado, o cardeal permanece cardeal, em alguns elementos ele retoma o ideal de uma realidade anterior, lembra pontos medievais. Richelieu defende, em seu Testamento político, a natureza divina do monarca. Mantém em mente, a necessidade de categorias de pessoas para a grandeza da França, que o rei mesmo determinado por Deus depende de seus nobres, da sociedade de corte, e, também, do povo. Fato que será comprovado pelo monarca sucessor, Luís XIV, ao travar combate com a liga dos Absburgos, em que já sem a figura de Premier Ministre, o sucessor de Richelieu – Cardeal Mazzarino – já havia morrido e o rei desempenhava a função de chefe de Estado e chefe de governo em toda a sua amplitude, necessitou do suporte popular para manter a máquina de guerra francesa abastecida.


3 A OBRA DE ALEXANDRE DUMAS: “UMA POR TODAS...”.

O livro escrito por Alexandre Dumas, Os três mosqueteiros, é parte da trilogia conhecida como estórias de D’Artagnan. A obra mencionada é apenas o primeiro capítulo da vida do herói. As seqüências são os volumes intitulados Vinte anos depois e O Visconde de Bragelonne. Todavia, deve-se mencionar que de início D’Artagnan não é um mosqueteiro, o opúsculo narra o percurso do jovem para se tornar um e como ele forma um vínculo de amizade com três homens já mosqueteiros do rei, e por alguns tidos como os melhores.
Dumas fisga o leitor ao narrar o sonho de um jovem. O jovem vindo de uma família nobre que se encontra empobrecida consegue por seu pai uma carta de recomendação escrita pelo capitão de uma das companhias de mosqueteiros da guarda (dado o fato de serem conterrâneos).
Porém, seria tudo muito simples e é assim que o acaso se faz presente. Acaso é encontrar uma comitiva de um nobre vestido de preto e que ostenta na face uma cicatriz. As pessoas e o nobre insultam o jovem graças a cor do cavalo do mesmo. A necessidade do homem da época retumba, só o duelo limpará a honra. Derrota D’Artagnan é pilhado seu dinheiro e a carta que levaria a realização de um sonho são levados. A trama tem os primeiros traços assentados, pois o nobre é o braço direito do cardeal Richelieu, o Conde de Rochefort. Isso desencadeia as peripécias do jovem, como ele se hospeda no Hotel Treville, conhece os futuros amigos e como se liga a rainha Ana da Áustria (e cai na trama do cardeal e seus espiões, vai a Londres, foge de uma bela assassina, a luta contra aquele que é contra a França – o Duque de Buckingham – e a obtenção do posto de oficial da guarda real).
Por todo o exposto, o interessante é notar que é uma visão de uma pessoa do século XIX sobre o século XVII. A política mostrada, apesar de constar os nomes de pessoas do passado, é, em real, um reflexo (e porque não uma crítica) dos acontecimentos de sua própria época, cuja orientação diplomática desencadeará duas guerras mundiais.

4 ADAPTAÇÃO PARA O CINEMA: “... TODAS POR UMA”.

Os trabalhos de Alexandre Dumas foram adaptados várias vezes para o cinema. Todavia a que teve mais versões foi Os três mosqueteiros, e cada uma delas teve seu ponto de distanciamento com a estória original, bem como o enfoque dado, incluso, aos personagens. Porém ao analisar o filme proposto, intenta-se mostrar que é uma visão do século XX, para algo feito no século anterior ambientado no século XVII.
A versão escolhida como base foi produzida pela Disney, e de tudo feito pela empresa zela por uma visão de mundo própria, de cunho maniqueísta. A visão explicita que há a luta do bem contra o mal, os opositores estão bem definidos pelos seus defeitos e qualidades. Mas, detalhe que não pode faltar, é o momento catártico, em que, no final, o último sempre perde.
Nesta estória as aventuras de D’Artagnan são recontadas, os anseios do rapaz são mantidos, entretanto, como o afirmado sobre a ótica do produtor, delimita-se os bons e os maus. E para fazer tanto, o período histórico não fica bem estabelecido, a inferência é feita pela dinâmica dos personagens centrais. Para enquadrar o clássico de Dumas para a grande tela, simplifica-se a trama e altera alguns pontos. Os mais gritantes contrastes estão na jornada do herói (desempenhada pelos quatro amigos), a acusação de traição dirigida ao cardeal, a demissão do cardeal pelo rei (tacitamente entendida pelo soco) e a redenção de D’Artagnan (no tocante a memória de seu assassinado pai) ao duelar e matar o cruel Rochefort.
Assim, ao refletir as necessidades de doutrinar segundo premissas maniqueístas, a obra cinematográfica reflete o mundo em mudança na época (fim do século XX). Ao manter a dualidade bem e mal fica explícita a questão que acaba de ser superada, a polarização mundial que até 1990 existia. Até o ano mencionado, de um lado estava os Estados Unidos e do outro a União Soviética, em que aquele que falava era o bom e o de que se falava era o mau. A diplomacia com múltiplos participantes, que havia no período de Dumas, ainda está para ser restabelecida por aqueles que não buscam colocar um inimigo para manter a polarização falam em hegemonia de uma única potência.


5 CONSIDERAÇÕES FINAIS.

Quando se aborda temas sob a perspectiva de um filme sobre eventos históricos devem ser mantidos dois elementos em mente, o primeiro, filmes estão intimamente comprometidos com a finalidade de entretenimento, e segundo, o anacronismo, em que valores atuais são transpostos para épocas passadas e todo o conjunto de valores existente à época é substituído ou questionado (com subseqüente juízo de valor – e declarado o adotado no passado sendo equivocado).
Por fim, ao examinar tanto as posturas políticas como a narrativa delas, vê-se que o homem está comprometido como uma estória e uma história. Porque as duas estão relacionadas com ideais, e nada melhor para externar uma ideologia do que a narrativa, e, principalmente, o que a narrativa tenta ocultar. O cardeal ao agir mostra como uma pessoa pode oficiar para a força do seu país, como ao usar de idéias (filosofia) se pode moldar a história, não para trás, mas sim para frente.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. 3. Ed. São Paulo: Brasiliense, 1995.

DUMAS, Alexandre. KUPSTAS, Márcia. Três Mosqueteiros. São Paulo: FTD, 2003.

GILBERT, Adrian. Enciclopédia das Guerras: conflitos mundiais através dos tempos. São Paulo: M. Books do Brasil Editora Ltda, 2005.

HAHN, Fábio Ancré. A Perfeição do Político no Pensamento do Cardeal Richelieu (Revista Varia Scientia, v. 05, n. 09, p. 205 – 208). Cascavel: Unioeste, 2005.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Editora Revista dos tribunais, 1997.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Jardim dos Livros Editora, 2007.

PARKER, Geoffrey. Cambridge Ilustrated History of Warfare. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.

PERRY, Marvin. Civilização Ocidental: uma história concisa. 2. Ed. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2002.

Relatório Da Apresentação




Tema: A Filosofia Como Instrumento do Autoritarismo.




Relatório Individual.


No dia 20 de junho de 2008 o vídeo sobre o mencionado tema foi desvelado para o público composto pela turma do 2º ano de Filosofia da PUCPR, bem como o professor da matéria de Prática Profissional e convidados.


O material didático referente ao vídeo teve sua apresentação uma semana antes.


Da reunião dessas duas peças um mito veio a tona: A apresentação concomitante ao vídeo.


A primeira mostra do conjunto foi revestida de teatralidade mínima, uma vez que a intenção era só a exibição do vídeo. Mesmo assim, o grupo se fez presente com os trajes característicos.


O vídeo mostrou sua força, apenas pequenos detalhes foram apontados quanto à presença de música no momento da fala, o que poderia interferir na compreenção. Dado o objetivo estar mirado nas estrelas, dicas para aparar as arestas deste diamante bruto foram acatadas.




Dois meses depois, dia 20 de agosto de 2008. Após negociações com várias entidades, leia-se, Sinagogas, Igrejas cristãs de diferentes linhas e a Direção de Sociologia da PUCPR. Apenas o curso de Sociologia se mostrou bravo o bastante para embarcar nessa experiência intelectual.


O horário - 20:45. Campo de batalha - sala A25. O inimigo - a ignorância.


O grupo de alunos que idealizou a temática, João, Juliana e Petter, aliado aos acadêmicos de Sociologia empreenderam combate a este mal global (ignorância). A apresentação se deu como uma batalha de três frentes: o vídeo, o caderno de atividade e a exposição do grupo. Intercalando a fala dos palestrantes, devidamente imbuídos do espírito do pesquisado, o vídeo e relacionando com o colacionado na apostila o conteúdo foi passado em revista. Missão cumprida, a operação foi um sucesso.




Relatório do Grupo.


Com o intuito de transmitir o vídeo produzido, bem como o material (caderno) didático, intitulado “A filosofia como instrumento do totalitarismo”, a equipe B-52 se dispôs a apresentá-lo para um grupo com interesse sobre o tema proposto.
O primeiro lugar procurado para a apresentação foi uma sinagoga, visto que, a temática exposta na película é de total interesse, todavia não foi possível a apresentação do material, pois, segundo as sinagogas que foram entradas em contato, estas não possuíam um grupo para atividade deste gênero.
Dessa forma, o público escolhido para a apresentação do material filosófico foi o 2º período da turma de Sociologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. No dia 20 de agosto de 2008, na sala A-25, às 20h45min deu-se início a apresentação da mostra do filme filosófico: “A filosofia como instrumento do totalitarismo” (“será possível a filosofia capaz de “praticar” o mal?”).
Acolhimento e admiração. Admiração, característica marcante na face dos espectadores, pois com uma abordagem dinâmica que prendeu a atenção do início ao término da exposição permitiu uma interação específica entre o tema proposto e quem o assistia.
Afinal, o vídeo foi aceito de forma convincente e positiva? Segundo os comentários após a apresentação sim. Elogiaram a forma em que foi transmitido o vídeo (forma teatral + filme + comentários + caderno),e o que mais foi destacado no grupo foi a visão ampla dos acontecimentos históricos, não priorizando somente um lado, mas uma totalidade e multiplicidade de acontecimentos ( referência aos modelos contemporâneos de totalitarismo = nazismo e socialismo marxista).
Por fim, à luz da apresentação do vídeo perante um público diferente ao do convívio acadêmico de filosofia deixou uma possibilidade confortante ao grupo B-52. O tema escolhido para a confecção e elaboração do material didático teve o intuito de transmitir um alerta à sociedade atual, apontar que estes acontecimentos não cessaram, pelo contrário, o que instigou o grupo a saber mais sobre o assunto, e, ter a chance de transmiti-lo a públicos diferentes.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Porteiro SM e outros valores morais relacionados.

Outra análise de filme. A obra em questão é:
O Porteiro da Noite (Il portiere di notte, no original). Itália, 1974.
Direção de Liliana Cavani, no elenco Dirk Bogarde, Charlotte Rampling, Philippe Leroy-Beaulieu, Gabriele Ferzetti e Isa Miranda.
O ponto a ser vislumbrado no presente ensaio são os traços mentais que Lacan apontaria, e ainda o aspecto filosófico contido na obra sob a luz de Immanuel Kant.
Porém, antes de atacar a questão mostrada anteriormente, convém contar o filme em si.
Tudo começa treze (13) anos após a Segunda Guerra Mundial, em Viena, mais precisamente em um hotel na mencionada cidade austríaca. No momento em que Lucia Atherton, violinista em uma filarmônica americana, e seu marido, maestro do tido conjunto de sobro-cordas-percussão, chegam ao hotel, esta tem a impressão de conhecer o porteiro.
O porteiro por sua vez, durante a guerra, foi oficial da SS. Para esconder seu passado, trabalha compulsivamente e se reúne com seus colegas nazistas. Em dado momento do filme, revela que trabalha no turno da noite por ter vergonha da luz do dia, ela revela para o seu consciente o passado que quer ocultar.
Lucia tinha sido prisioneira em campo de concentração do 3º Reich, mas acreditava ter superado tudo com o transcurso do tempo, e sucesso na vida (seja o profissional, como o pessoal). Todavia, a impressão de já conhecer o porteiro perturba a personagem em questão. A noite ela volta a ter pesadelos com o período que experimentou treze (13) anos antes. E, pela má sensação, passa a evitar o porteiro quando os serviços desse são requisitados por seu marido.
Mas Maximilian Theo Aldorfer, o porteiro, Max para simplificar, percebe que há algo estranho quanto àquela mulher. Ele percebe e relata suas conclusões à sua confidente, a condessa. A condessa e amiga no círculo nazista recebe favores de Max, este arranja companheiros noturnos para essa, assim tendo sua reputação estimada no hotel e sua administração.
Neste passo, há o primeiro obstáculo para o clímax da película, o confronto entre Max e Lucia. Max pede que um colega o substitua em um evento para que possa ir ao quarto de Lucia. Esta se esquiva, mas é inevitável, ao se verem cara à cara a audiência espera ódio, entretanto o que se vê é uma paixão que ultrapassa os limites do comum, tanto que a crítica condenou como transgressão sexual.
Max é um sádico e um masoquista, já Lucia por perseguida no campo de concentração e protegida por Max claramente apresenta traços da Síndrome de Estocolmo. Chegando a realizar as fantasias do amado.
Eles retomam o que interromperam com os desenlaces da 2ª guerra mundial. E é aí que surge o próximo obstáculo da trama. Os colegas do regime anterior criaram um grupo de apoio, com alegadas bases psicológicas de curarem os que serviram naquele, e darem um seqüência de vida de pura paz. A questão é que eles "arquivam" as testemunhas, em outras palavras as eliminam. Ao ser confrontado pelos amigos, ele nega ter encontrado alguém que o conhecia antes de ser porteiro. As tentativas de Max falham, tudo é descoberto, e é exigida a presença da moça.
Como estratégia ele a acorrenta no apartamento, para que não a levem, e assim trabalhar tranquilo. Inútil, um representante chega até ela, e expõe o sadismo e a necessidade do testemunho de Lucia, todavia, ao perceber que a moça não percebe a realidade pelo quadro mental que apresenta uma solução é proposta, morte aos dois.
Para não possibilitar a solução, Max e Lucia se trancam no apartamento do primeiro. Os nazistas cortam o suprimento de alimentos para forçar a saída. O racionamento leva à fome. E uma única saída é vislumbrada, confronto.
O casal vai à rua, ela com um vestido que lembra momentos pretéritos e ele com seu uniforme da SS. Ao chegarem a uma ponte são mortos a tiros. Fim.
Onde se vê Lacan? Está no masoquismo e modo de pensar sádico de Max. Tal como em Freud, excessos sexuais estão mais ligados à pulsão de morte (tanatos) do que à pulsão de vida (eros). E assim se dá por haver a rejeição do objeto de desejo, espelhando a própria existência do agente. Tudo gira pela idéia da punição aplicada, o objeto não é mais simplesmente sexual, o aspecto sexual fica em um plano inferior enquanto o punir toma o centro das atenções.
Kant está na vontade. E só nela, pois a moral está totalmente entregue a vontade, logo corrompida, e então, não é moral. Relembrando, vontade em Kant é a delimitação de quanto as paixões incidem na atitude, a vontade egoística mancha a conduta. A maneira de agir livre e desimpedida ausente da incidência de qualquer paixão e desapegada de posterior reconhecimento redunda em virtude. O ser racional finito, que é o homem, só atinge a sabedoria prática, ou seja, só obtém para si um sistema de valoração, em si um dever, se age sem paixão, com a vontade de agir daquela forma exclusivamente. Este dever mencionado é o cultivo da virtude (a ética), meio de se aperfeiçoar. No filme há vontade, mas permeada de paixões, assim não há virtude e a configuração do dever é negada.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Vai lutar contra o sistema, assim, lá longe!

"Sócrates era feio, Platão era gordo e Aristóteles era um almofadinha." David Gale bêbado lecionando para transeuntes no meio da rua, no filme A Vida de David Gale.


O filme a ser comentado neste espaço é:

Título: A Vida de David Gale (The Life of David Gale).
País de origem: Estados Unidos da América e Alemanha.
Ano: 2003.
Direção: Alan Parker.
Elenco: Kevin Spacey, Kate Winslet, Laura Linney, Gabriel Mann.
Duração: 130 minutos.
Gênero: Drama.
Distribuição: Universal Pictures.

A sinopse do filme, contida no verso da caixa do DVD, expõe: David Gale (Kevin Spacey) é um brilhante professor de filosofia. Tem livros publicados, é respeitado, extremamente inteligente... mas está no corredor da morte, aguardando sua execução. Ele é acusado de ter estuprado e assassinado uma colega de trabalho e ex-aluna. Às vésperas de sua morte, David pede a presença da repórter Bitsey Bloom (Kate Winslet) para que lhe conceda uma entrevista na qual contaria toda a verdade sobre o caso. Uma história inacreditável, envolvendo alcoolismo, a mulher que o abandonou , a melhor amiga (Laura Linney), que está morrendo de leucemia, um advogado incompetente e um governador que adoraria eletrocutá-lo. Quanto mais Bitsey ouve, mais fica estarrecida. Mas com apenas quatro dias para a execução, talvez seja tarde demais para inocentá-lo.

Convém iniciar o presente comentário com uma explicação: Por que neste filme escolhi usar o resumo comercial do filme, ao invés de usar minhas próprias palavras? Respondo: Por ter este filme um arco de estória fenomenal, e ao narrar o filme poderia incorrer na revelação de um evento que só competiria à trama conduzir o espectador. Assim, deixo o breve relato do filme para a empresa distribuidora e passo diretamente às questões filosóficas.
O tema da vontade. Vontade em Filosofia é abordado desde Platão, mas neste ela deve ceder ao ideal maior, e deve ser sempre contida pela moderação. Com Aristóteles, é apenas reflexo da matéria que anseia movimento. Descartes fala que é a agitação da alma, e Kant realiza no sentido de conservação das coisas. E Hegel afirma ser desejo/vontade um reflexo da auto-consciência. Mas a melhor forma de expor desejo é como o personagem do título, em uma palestra ministrada, conta: "Você não quer a coisa, mas sim você quer o que fantasia a respeito da coisa." Em Lacan é o desejo constante, pois uma vez obtido o objeto de desejo, gera com que a pessoa substitua por um novo desejo.
Já o ponto verdade, é ainda mais controvertida que a questão vontade. Verdade em termos gerais é a sinceridade, a boa-fé e honestidade. Seria a conformidade entre o relatado e o ocorrido. Os elementos que influem na delimitação da verdade são a subjetividade, o objetivo do discurso, ou, ainda, a própria concepção de mundo se atingida por um grau de relatividade.
Como conclusão se pode ver que vontade em dados momentos podem ocultar a verdade. Pois a verdade está ligada à fala, e esta pode acabar como escrava da vontade. E tal fato no filme é revelado por um jogo de palavras:

"Eu sei quando morrerei. Mas não posso dizer porque." Aqui a palavra poder pode significar duas coisas, o não poder por desconhecer a verdade ou não poder por não ter a vontade de revelá-la. Para saber qual era o caso de David Gale, fica a recomendação de assistir a esta brilhante narrativa.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Outro ângulo para JC.


Tal como a postagem referente ao filme “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, a história do filme em questão (“A Última Tentação de Cristo”, de Martin Scorsese) é bem conhecida pelos cristãos, ou pelo menos deveria ser para aqueles que assim se dizem. Porém com um detalhe o roteiro não é fiel à narrativa bíblica.
A estória de “A Última Tentação de Cristo” objetivou, e isto fica bem claro no início do filme dado o aviso que é apresentado, ser uma adaptação do livro de Nikos Kazantzakis. O livro e o filme, ambos possuidores do mesmo título, não seguem o evangelho. Assim, invalida a afirmativa do conhecimento da estória feita no primeiro parágrafo. Disto, tem-se que a linha da trama não segue o cânone do Novo Testamento, pelo contrário traz à baila a liberdade de Jesus.
Em breves linhas o filme apresenta Jesus, inicialmente, como o carpinteiro responsável pela convecção de cruzes para a execução dos mandados de um território ocupado por Roma. Tal trabalho mina o espírito do personagem, e faz duvidar das vozes que ouve (e atribui a Deus). Desprezado pelos conterrâneos, só o militante Judas acredita nele e, com isto, rejeita a missão dada pela célula revoltosa de assassinar o traidor que ajuda a causa romana. Com a peregrinação, a conversa com João Batista e as tentações de Satanás, o homem se aproxima do ideal de Cristo. Com a dúvida no coração, Jesus busca suporte na figura de Judas. Todavia, a trama segue para o desfecho esperado, a ceia, as acusações e a pena na cruz. A reviravolta se dá com a imagem que salva Jesus da morte e revela a idéia oposta, ele não é messias, cristo e filho de Deus. Deste ponto, Jesus casa com Maria Madalena até a morte dessa e segue os rumos da vida com a filha de Lázaro. A paz deste só é perturbada com a aparição de Paulo, que conclui ser a estória e ideal de Jesus Cristo maior que o homem real. Perto da morte a imagem que o salva mostra ser Satã, a crise se instala em sua psique, Jesus em meio aos caos volta ao lugar onde era para ter morrido e pede a Deus que os desígnio sejam cumpridos e ele morra para a humanidade viver... e Jesus volta para o momento da crucificação e cumpre o esperado.
Os olhos filosóficos incidentes na película revelam conceitos como dever, sofrimento e verdade.
No quesito dever se remete aos ideais filosóficos da era helênica, onde se espera que o bom homem se anule frente à sua missão de vida. Porém este é melhor abrigado na questão sofrimento e verdade, que aparecem no conflito narrado por Arthur Schoppenhauer em vontade e desejo. A vontade de viver desse filósofo é a força que impulsiona o home, mas esta é permeada por paixões. E preso ao desejo o homem vive em um mundo de objetos, logo, restando atormentado por isso, mas é o bastante para fazer o ser humano perseverar.
Todo o mencionado no parágrafo anterior é sentido pelo Jesus da produção cinematográfica, até que frente à decepção do esvaziamento de sua vida (cedeu a tentação do diabo), ele supera o modelo de Schoppenhauer e elege o propósito estóico do dever (“E está cumprido”, como afirma o Cristo retornado à cruz).

JC no Cinema: Mensagem POP



A história em questão é bem conhecida pelos cristãos, ou pelo menos deveria ser para aqueles que assim se dizem. Mais do que um meio de difundir uma fé, a narrativa bíblica, ao se abstrair o ponto voltado para a religião, é um veículo de ensinar valores morais ou informar um evento o qual o escritor considerou relevante para ser passado adiante, digno de ser transmitido para as próximas gerações.
A estória de “A Paixão de Cristo” teve o intento, conforme afirmado pelo diretor e co-roteirista Mel Gibson, de ser o mais fiel ao espírito do evangelho possível. Acrescentando elementos esclarecidos pela História (e os métodos de pesquisa arqueológica moderna). Disto, tem-se que a linha da trama segue o cânone do Novo Testamento, em especial o livro de João, no período compreendido pelo momento posterior à Última Ceia até a Ressurreição.
Em breves linhas o filme apresenta o homem Jesus sendo tentado por uma forma andrógina e humanóide que representa Satã. Dos percalços surge a força e determinação de Jesus, o que resulta em um confronto com Caifás (e daí a acusação de blasfêmia pela pronuncia do nome divino). Da série de problema de jurisdição ente hebreus (representados por Herodes) e romanos (sob a direção de Pôncio Pilatos). Ao fim, pela pressão do clero judaico cabe aos romanos a sentença e execução da pena de Jesus. Em uma última manobra, por influência de sua esposa, Pilatos tenta uma saída com o perdão do feriado (o povo poderá libertar Jesus ou outro indiciado – Barrabás). O povo corrompido pelo dinheiro de Caifás liberta Barrabás e Jesus é crucificado. Mas o caminho da crucificação (Via Cruxis, em latim), bem como a prática da tortura em momento anterior – o inquérito de apuração de crime, é o marcante para a audiência. Marcante pela violência e as cenas de tortura explícita. Porém o filme termina com a mensagem da superação da carne, a ressurreição.
Agora a pergunta é: Como isso se relaciona com Filosofia? Em várias formas. Pois há a aceitação do dever característica epicurista e o existencialismo cristão (existência justificada pelo divino) de Kierkegaard. Existe também, e especialmente, a dualidade platônica que posteriormente é recebida pelos medievais da escola Patrística. Em que o Sumo Bem (Deus) é a idéia perfeita e o carnal é transitório, imperfeito e que cabe a cada pessoa almejar a Deus. Mas tanto Jesus como o filme fazem algo incomum no mundo da Filosofia, eles trazem uma resposta de como atingir os objetivos da humanidade, e esta resposta é o amor.


sexta-feira, 14 de março de 2008

Filhos da Esperança, um ponto de vista.



Trazido como algo além do que os olhos captam no primeiro plano, o filme Filhos da Esperança (Children of Men, no original) seria veículo de diversas digressões filosóficas. Tal afirmação se vê reforçada pelo vídeo postado (no site http://www.youtube.com/) pelo pensador esloveno Slavoj Zizek.
O filme conta como um mundo em colapso espera o seu fim. Porém um evento muda a situação. Em um pedido inusitado o herói (Theo Faron, interpretado por Clive Owen) se vê envolvido no transporte de uma imigrante ilegal. Mas um novo degrau é aguardado para este, a mulher é a primeira grávida em 18 anos. Em meio a um desvirtuamento do movimento que assistia a transferência da mulher, há a intenção de usá-la como ferramenta política. Depois de muitos percalços o futuro pode ser vislumbrado ao final.
Com isto, poderia apontar como idéias do filme relacionadas com Filosofia a esperança, avanço cultural (mítica incluída) e moral.
A esperança se vê presente, e a conseqüente ação, toda a vez que a possibilidade de vida surge.
Já no campo cultural, tecnológico e social não se constata grandes avanços. Mesmo ambientado em 2027, pouca diferença é percebida com o ano da produção (2006). E tal fato foi intencional para o diretor por uma vez que as pessoas não possuem motivos para perseverar, pouco de novo será acrescido no campo sócio-cultural e no científico. Quanto à mítica, está nos nomes e alusões feitas no decorrer do enredo (o barco amanhã, a grávida brincando ser virgem, peixes, o caminho do herói) sem maiores intencionalidades de questionar os dogmas.
Moral é referente ao trato de um ser humano com outro. Como os cidadãos possuem privilégios que os refugiados não possuem. A temática pode ser vista no diálogo antes da eleição da nova liderança, em que uma vez o governo sabendo da criança de uma refugiada, iniciaria o dialogo para determinar se refugiados são gente. A conduta do valor do indivíduo é levantada nesta esfera.
Pelo vídeo citado no primeiro parágrafo, Zizek expõe que o melhor entendimento do filme está no pano de fundo, que a mensagem consta neste pano de fundo. Que este fundo é uma prisão para a esperança do herói. Onde os atos de alguns são depravação do real, e aí fazendo alusão às obras de arte, ou seja, atos isentos de sentido. Assim, pelo fundo abordar os temas de imigração, a tradição e a decadência cultural pós-68. No tocante à metáfora do barco, em este representar o estado de coisas, sem raiz, é deveras forçoso.
Contudo a visão do autor está um pouco mais ampla que o realmente mostrado. Pois, dada a sua formação psicanalítica, em especial na raiz lacaniana, há a busca por certos arquétipos existentes na construção de mentalidade. Extrapolando as temática da esperança e da mítica, incluso alargando os limites para abarcar questões de fertilidade (ante sexualidade conexa com fertilidade ser ponto apenas figurativo na fala dos personagens ao tratar de alguns eventos da história pessoal de cada um deles), não sendo em nenhum momento tratado sob todos os holofotes, mesmo sob o prisma da infertilidade espiritual (há messiânicos retratados na praça, há árabes engajados, etc...). Dar ênfase à sexualidade neste filme seria o mesmo que estabelecer construções pormenorizadas sobre o Estado de polícia que se instalou no ambiente do filme, outro figurante frente a "questão vida".
Pelo exposto, a película cativa pela dinâmica das imagens, em que tanto as pessoas de figuração como o ambiente exercem sua pressão nos personagens. O embate entre os planos da ação reflete a temática da estória, em que os segregados tentam a todo momento integrar a sociedade que os rejeita. O mais irônico é que no decorrer da trama não é o fundo de tela que passas ao primeiro plano, mas sim os heróis que, para sobreviver, são alijados para a paisagem, eles devem ter uma diminuição de status social para viver (e ter a chance de cumprir a jornada pretendida). Extraído este elemento, nota-se que a temática central (onde a aceitação, inclusão, discriminação, é tema secundário) é o sentido de finalidade da vida (propósito) e como esta se relaciona com conceitos como esperança, tolerância e barbárie. Da situação de caos pela impossibilidade de nova vida e do esforço ao perceber a chance de futuro, o que fica da experiência do filme é: que só se pode haver uma vida (satisfatória, feliz, ...) se há esperança (de futuro, continuidade, ...), e a esperança só é ativa com a projeção de vida. Ou seja, vida e esperança estão interligados, só pode haver um com o outro.

sábado, 8 de março de 2008

O Estoicismo de Marco Aurélio no filme "Gladiador"


O filme "Gladiador" foi uma tentativa de Hollywood em reavivar um estilo de cinema deixado de lado por anos, os Épicos. Para gerar uma estória coerente e cativante, os roteiristas se valem da máxima expressada ao Padre Merin (de "O Exorcista"), em que a mentira mistura com a verdade é de difícil detecção. Assim, o enredo da obra vislumbrada mistura fatos históricos com fictícios, e tudo chega apenas a um lugar: a criação de um novo clássico, um novo épico.
Ponto de enfoque aqui intentado com relação à película é como tratam o Estoicismo. Com isto, o desenvolvimento adotado será apresentar as idéias gerais desta escola de pensamento, como os ideais estóicos se encontram nas Meditações (obra escrita pelo Imperador Marco Aurélio), e a maneira pela qual a estrutura cinematográfica analisada traz a figura de Marco Aurélio, bem como seus ensinamentos.
Estoicismo foi uma escola filosófica da Era Helenística (inaugurada por Alexandre, O Grande) recepcionada pela tradição romana que pregava ser o logos (razão) só alcançado pelo pensamento claro e descompromissado. O modo de conseguir um raciocínio claro era pelo auto-controle, apenas pela contenção das vontades, pela superação dos sentimentos destrutivos, poderia ser encontrada a verdade e a felicidade. Destaque, além do controle emocional, é a ênfase dada a vida nas cidades (vida em comunidade, o cosmopolitismo), em que as pessoas deviam viver em irmandade, reconhecer os outros como irmãos independente de origem (nisto incluindo até os escravos). Ícone conceitual também presente nesta linha de pensamento é o determinismo, em que a vontade do sujeito deve se adequar ao mundo em que vive e sua função na mecânica da realidade.
As idéias contidas nas Meditações de Marco Aurélio surgiram com linha mestras para o próprio escritor usar como ferramentas na aproximação dos objetivos estóicos. A questão central da obra reflete em muito os intentos da escola a que pertence por focar no controle emocional e futilidade do materialismo. Frase que coroa os objetivos é: "Nunca considere alguma coisa como boa se trai a verdade ou te faz perder o senso de vergonha ou te faz mostrar ódio, suspeita, má vontade ou hipocrisia ou ainda um desejo de coisas belamente feitas por detrás das portas".
Já no contexto de "Gladiador" o Imperador Marco Aurélio se mostra muito menos estóico do que o real governante-pensador romano. Um dos elementos que corroboram tal afirmativa é a preocupação em como será lembrado depois de sua morte, antítese à escola a que pertence, pois nela consta o determinismo, em que cada indivíduo está no mundo para um propósito e não se deve preocupar com isto (deve até achar a felicidade com esta condição). O momento em que é externado o ideal estóico se encontra no diálogo do pai Marco Aurélio com o filho Cômodo sobre a lista de virtudes, lista em que figuram valores como Sabedoria, Justiça, Fortitude e Temperança. Ressalta-se Temperança, o controle dos impulsos, real alicerce do estoicismo.
De todo o exposto, o estoicismo é apenas um traço sutil na estória de "Gladiador" porque há a preocupação constante com a imagem a ser deixada para o futuro, bem como a vontade superando os deveres. O personagem que mais mostra as cores da escola estóica é Maximus, depois das provações contidas no filme, quando, finalmente, este aceita o trabalho que lhe é proposto no início (entregar o poder romano imperial novamente para o povo/Senado), seu dever, sua função no mundo, e com o contentamento pela execução da tarefa.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Critica do Filme "Odisséia"

Para melhor compreender a crítica, segue-se o seguinte padrão. Primeiro, apresenta-se o conteúdo do filme. Depois faz-se a crítica em si do filme, e tal crítica não será arbitrária, será pelo cotejar de passagens do filme com elementos filosóficos.
Para aqueles que são familiares com a estória em questão, fica a pergunta de se o filme segue a narração homérica. Sim, tanto segue que a tentativa de conter todos os elementos no longa metragem acarretam uma duração expressiva.
A produção opta pelo nome grego do herói: Odisseu. Enquanto o filme anteriormente resenhado, "Tróia", favoreceu o nome latino (romano): Ulisses.
O diretor mostra a jornada de Odisseu desde antes da obra de Homero. Inicia com o nascimento do filho do personagem principal, Telêmaco. Na sequência mostra a cobrança do tratado grego por Menelau e Agamenon, redundando na marcha de Odisseu para a guerra com Tróia. Na continuação há uma forma abreviada dos 10 (dez) anos de combates com o (famoso) fechamento do cavalo oco (e a cidade murada arde).
Uma vez a vitória conquistada a viagem de volta está para começar. Porém, realizando a análise da deusa Atena, o ardor do sucesso em batalha aflora a vaidade e arrogância do herói. Em tom desafiador ele declara que tudo foi obtido pela empresa de homens, sem os deuses. Poseidon injuriado por ver sua assistência em silenciar o adivinho (o Deus envia uma serpente marinha para corroborar a estória do traidor heleno, fazendo com que Priamo leve o cavalo-oferenda para dentro dos portões da cidadela) menosprezada amaldiçoa o grego. Com o pouco caso do sagaz rei a partida é realizada. Aqui realmente começa a odisséia (palavra que ganhou os dicionários como percurso árduo que resulta em crescimento interior).
As aventuras obedecem os moldes do poeta grego, apenas com a falta dos atos de pirataria em Ismarus, os comedores de lótus, das sereias, da cara desolada de Aquiles no submundo, a figura de Laertes, e a intervenção final de Atena para evitar a vingança do povo de Ítaca contra Odisseu por ocasionar a perda de 2 (duas) gerações de homens. Assim, pode-se enumerar as aventuras: o embate com o ciclope Polifemo, a ajuda do Deus do vento Éolo (e a demonstração de como a curiosidade pode ser negativa), Circe, a ida ao submundo (e a conversa com o velho profeta cego Tirésias), os monstros Scylla e Caribdis, a ilha de Calipso, a denominada telemaquia (a jornada do filho do herói para coletar dados do pai), e a embaixada aos Faécios (que resulta em um desembarque na ilha de Ítaca, reino de Odisseu, e antecâmara para o massacre dos pretendentes).
O massacre dos pretendentes da esposa de Odisseu, Penélope, é mais um momento de catarze do que simbólico, pois é a intenção de todo indivíduo de se livrar dos usurpadores. É o fim ideal para os sofrimentos de uma pessoa, liberar a raiva em algo construtivo, tal como o pai aconselha o filho: " Ter raiva é fácil, ter raiva no momento certo contra a pessoa certa é que é difícil".
A crítica aqui não é destinada em um simples bom ou ruim. Ou então à uma análise dos efeitos especiais ou fotografia. Mas sim ligar elementos do filme com questões pontuais da Filosofia.
O primeiro ponto visado é o desafio de Odisseu. Pois aqui fica explicitada a vontade do homem em superar os deuses, se fazer autônomo. O personagem o faz afirmando que com a astúcia ele pode superar a divindade por crer que foi a idéia que finalizou a guerra e não o favor celeste.
A curiosidade prejudica. Isto é mais empregado por Homero como elemento de educação do cidadão almejado do que ponto de digressão. A ironia da liberação do vento do leste apenas a algumas milhas náuticas de Ítaca, dando seguimento à agonia, é um demonstrativo para o leitor ou ouvinte de que a curiosidade quando mal empregada resultará em atraso no percurso (seja qual for, desenvolvimento pessoal ou deslocamento geográfico).
A face do Aquiles falecido foi um ponto esquecido no filme, mas que é simbólico no livro. Mostra a passagem do ideal de homem grego pretendido. Revela que aquele que se funda apenas nas perícias físicas (bélicas) não será pleno. Apenas aquele que unir a aptidão muscular com o intelecto será feliz (logo, um ser pleno).
A figura de Laertes. outro ponto faltante na obra visual que é expressiva na visão homérica. É a demonstração da necessidade da legitimação da casa, o culto dos/aos antepassados. Com a visita de Odisseu e Telêmaco à antiga fazenda de Laerte (pai do primeiro) após matar os pretendentes/usurpadores.
Por fim, o diálogo com Tirésias. Ponto alto tanto no livro quanto no filme. Porque revela qual a finalidade da jornada, dos desafios. A resposta à pergunta da razão da aventura é conhecimento. O profeta cego afirma que a jornada só finalizará quando o personagem principal realizar quem ele é e onde ele vive. Conhecimento pessoal e do mundo em que se encontra. A frase demonstra que só será completo aquele que se conhecer e conhecer o seu mundo, a realidade em que está inserido. Todavia, o mundo/realidade só será possível, na concepção adotada nas obras mencionadas, pela noção de si. Assim, pode tudo ser resumido pela frase encontrada no Oráculo de Delfos: "Conhece a ti mesmo". A chave do passado, presente e futuro está na pessoa, e só se pode ter noção da pessoa, não pelo o que ela sabe, mas sim por onde ela esteve (o conteúdo absorvido pela vivência).

quarta-feira, 5 de março de 2008

Resenha do filme "Tróia"

Antes de criticar o filme convém explicitar o enredo do mesmo.
A película é sobre a guerra que povoa o imaginário de todos, inclusive aqueles que nada sabem sobre ela. Pois basta falar gregos, troianos, presente de grego, e outros detalhes que segue o famoso "Ah! A coisa do cavalo..."
Bem, desde já deixo dito que há a versão do filme da estória, a versão homérica da Ilíada e a lenda que chega por tradição oral.
O filmado mostra, inicialmente, como Agamenon consolidou seu poder entre os gregos, valendo-se das habilidades guerreiras de Aquiles. Desde este momento, começo da trama, já fica explícita a desavença e o atrito entre os personagens citados.
A trama segue a crescente com a mostra da embaixada da cidade de Tróia em solo espartano. Neste ponto os contornos são delimitados, Paris apaixona-se por Helena, rainha de Esparta, e esta foge com o primeiro. O ultraje feito ao rei de Esparta, irmão de Agamenon, é usado pelo último como via de realização de seus sonhos de grandeza (o tom pejorativo é proposital por o filme o alçar ao grau de vilão). Assim, dá-se início a marcha para a guerra. Agora é Gregos vs Troianos.
Todavia os helenos (gregos) necessitam de um trunfo. E o ás na manga é o "máquina zero" Aquiles, Príncipe guerreiro com movimentos que muito lembram Kung Fu (intercâmbio de civilizações? Não, nuance hollywoodiano mesmo.), fiel ao ideal que depois na História será materializado pelos ensinamentos de Aristóteles (na linha do tempo a Guerra de Tróia ocorreu muito antes do nascimento do filósofo mencionado). Na sequência ocorre o recrutamento de Aquiles (e seu primo Pátroclo) por Ulisses.
Guerra!
Os navios partem para a Ásia Menor, desembarque na praia, somente a falta de armas de fogo e artilharia deixam a cena devedora do desembarque na Normandia, o Dia D - A Operação Overlord (que pode ser experimentada no choque visual em filmes como "O Resgate do Soldado Ryan").
O combate flui, os gregos avançam, mas um ponto da trama se faz presente, o choque entre Agamenon e Aquiles. Tudo ocorre pela divisão dos espólios da batalha, em especial uma Serva de Apolo, Briseida, feita prisioneira (e futuramente recebendo o rótulo de escrava). Pelo desentendimento Aquiles se retira dos embates, os troianos tem folga e passam a aproveitar os benefícios das vitórias.
A ironia se faz presente... o primo usando a armadura de Aquiles desafia o campeão inimigo, Heitor. Este vence.
Aqui há a conhecidência com a versão de Homero. O poema trata da ira de Aquiles e como em sua arrogância narcisista ele fica injuriado e dirige sua fúria contra Heitor (Fúria que se soma ao ultraje recebido de Agamenon). O poeta grego (ou poetas, para aqueles familiarizados com a polêmica que cerca a figura de Homero) mostra como o herói grego exalta a si mesmo pelos atos, pelas proezas bélicas, e a glória que lhe é roubada é uma ofensa que ele (Aquiles, filho de um rei humano com uma deusa) não pode tolerar. Assim, a balança dos combates volta a pender para o lado grego... Heitor cai morto. Porém as muralhas de Tróia são intransponíveis.
Um ponto que chama a atenção é o amor que Príamo, rei de Tróia, pai de Heitor, demonstra no diálogo secreto com Aquiles. Que não há amor como o de um pai para um filho, mesmo que o modo de externar tenha que ser póstumo. O beijo na mão do assassino.
Da trégua feita por Príamo e Aquiles para velar Heitor, Ulisses tem a idéia que levará os gregos à vitória final... o ardil (o cavalo gigante oco).
Com a utilização do cavalo, os gregos invadem Tróia e o combate dentro das muralhas leva apenas para um resultado, a cidade cai.
Agamenon morre por sua ganância, o defeito narrado leva a descuidos.
Aquiles morre aos pés de um templo do Deus que ofendeu no seu desembarque, Apolo. Porém sua morte não é gerada por suas falhas de caráter (vaidade, arrogância), mas sim morre de forma honrada, tentando salvar aquela que passou a amar, Briseida. Tróia está em ruínas, mas cidadãos conseguem fugir e a passagem simbólica da espada troiana, mostra a continuidade da cultura. Homero não narra esta parte, e a tradição lendária expõe que Aquiles nunca entrou na cidade, pois foi profetizado e realizado pelos deuses olímpicos, foi seu filho Neoptólemo (sim do Aquiles, com uma princesa, enquanto escondido numa corte alienígena, forma encontrada pela mãe-deusa para tentar evitar a participação na luta e, consequente, morte) quem concluiu os trabalhos.
A estória mostra como a civilização grega muda o ideal perseguido: do ideal físico (Aquiles) para o raciocínio (Ulisses). Tal visão é objeto da tradição oral que envolve a Guerra de Tróia.
Para concluir, o filme traz elementos fundamentais da tradição que envolve o mito de Tróia. Mostra as características das personalidades dos personagens, ressalta os benefícios e as desvantagens de cada uma. Ao adequar a estória aos moldes exigidos pela indústria cinematográfica, pontos marcantes são deixados de lado, a questão dos costumes da época (o primo na verdade não é primo, é outra coisa), bem como a influência dos deuses no cotidiano. Outros pontos são acrescentados, que não figuram em Homero e na tradição, em especial a visão maniqueísta (a clara distinção entre bem e mal, personagens heróicos e vilões). O filme, todavia, ao ser classificado deve ser enfocado como o que é: entretenimento. E para isto é bem sucedido, ele é longo, mas não dá para perceber o lapso de tempo gasto, assim, polegares para cima.