Para melhor compreender a crítica, segue-se o seguinte padrão. Primeiro, apresenta-se o conteúdo do filme. Depois faz-se a crítica em si do filme, e tal crítica não será arbitrária, será pelo cotejar de passagens do filme com elementos filosóficos.
Para aqueles que são familiares com a estória em questão, fica a pergunta de se o filme segue a narração homérica. Sim, tanto segue que a tentativa de conter todos os elementos no longa metragem acarretam uma duração expressiva.
A produção opta pelo nome grego do herói: Odisseu. Enquanto o filme anteriormente resenhado, "Tróia", favoreceu o nome latino (romano): Ulisses.
O diretor mostra a jornada de Odisseu desde antes da obra de Homero. Inicia com o nascimento do filho do personagem principal, Telêmaco. Na sequência mostra a cobrança do tratado grego por Menelau e Agamenon, redundando na marcha de Odisseu para a guerra com Tróia. Na continuação há uma forma abreviada dos 10 (dez) anos de combates com o (famoso) fechamento do cavalo oco (e a cidade murada arde).
Uma vez a vitória conquistada a viagem de volta está para começar. Porém, realizando a análise da deusa Atena, o ardor do sucesso em batalha aflora a vaidade e arrogância do herói. Em tom desafiador ele declara que tudo foi obtido pela empresa de homens, sem os deuses. Poseidon injuriado por ver sua assistência em silenciar o adivinho (o Deus envia uma serpente marinha para corroborar a estória do traidor heleno, fazendo com que Priamo leve o cavalo-oferenda para dentro dos portões da cidadela) menosprezada amaldiçoa o grego. Com o pouco caso do sagaz rei a partida é realizada. Aqui realmente começa a odisséia (palavra que ganhou os dicionários como percurso árduo que resulta em crescimento interior).
As aventuras obedecem os moldes do poeta grego, apenas com a falta dos atos de pirataria em Ismarus, os comedores de lótus, das sereias, da cara desolada de Aquiles no submundo, a figura de Laertes, e a intervenção final de Atena para evitar a vingança do povo de Ítaca contra Odisseu por ocasionar a perda de 2 (duas) gerações de homens. Assim, pode-se enumerar as aventuras: o embate com o ciclope Polifemo, a ajuda do Deus do vento Éolo (e a demonstração de como a curiosidade pode ser negativa), Circe, a ida ao submundo (e a conversa com o velho profeta cego Tirésias), os monstros Scylla e Caribdis, a ilha de Calipso, a denominada telemaquia (a jornada do filho do herói para coletar dados do pai), e a embaixada aos Faécios (que resulta em um desembarque na ilha de Ítaca, reino de Odisseu, e antecâmara para o massacre dos pretendentes).
O massacre dos pretendentes da esposa de Odisseu, Penélope, é mais um momento de catarze do que simbólico, pois é a intenção de todo indivíduo de se livrar dos usurpadores. É o fim ideal para os sofrimentos de uma pessoa, liberar a raiva em algo construtivo, tal como o pai aconselha o filho: " Ter raiva é fácil, ter raiva no momento certo contra a pessoa certa é que é difícil".
A crítica aqui não é destinada em um simples bom ou ruim. Ou então à uma análise dos efeitos especiais ou fotografia. Mas sim ligar elementos do filme com questões pontuais da Filosofia.
O primeiro ponto visado é o desafio de Odisseu. Pois aqui fica explicitada a vontade do homem em superar os deuses, se fazer autônomo. O personagem o faz afirmando que com a astúcia ele pode superar a divindade por crer que foi a idéia que finalizou a guerra e não o favor celeste.
A curiosidade prejudica. Isto é mais empregado por Homero como elemento de educação do cidadão almejado do que ponto de digressão. A ironia da liberação do vento do leste apenas a algumas milhas náuticas de Ítaca, dando seguimento à agonia, é um demonstrativo para o leitor ou ouvinte de que a curiosidade quando mal empregada resultará em atraso no percurso (seja qual for, desenvolvimento pessoal ou deslocamento geográfico).
A face do Aquiles falecido foi um ponto esquecido no filme, mas que é simbólico no livro. Mostra a passagem do ideal de homem grego pretendido. Revela que aquele que se funda apenas nas perícias físicas (bélicas) não será pleno. Apenas aquele que unir a aptidão muscular com o intelecto será feliz (logo, um ser pleno).
A figura de Laertes. outro ponto faltante na obra visual que é expressiva na visão homérica. É a demonstração da necessidade da legitimação da casa, o culto dos/aos antepassados. Com a visita de Odisseu e Telêmaco à antiga fazenda de Laerte (pai do primeiro) após matar os pretendentes/usurpadores.
Por fim, o diálogo com Tirésias. Ponto alto tanto no livro quanto no filme. Porque revela qual a finalidade da jornada, dos desafios. A resposta à pergunta da razão da aventura é conhecimento. O profeta cego afirma que a jornada só finalizará quando o personagem principal realizar quem ele é e onde ele vive. Conhecimento pessoal e do mundo em que se encontra. A frase demonstra que só será completo aquele que se conhecer e conhecer o seu mundo, a realidade em que está inserido. Todavia, o mundo/realidade só será possível, na concepção adotada nas obras mencionadas, pela noção de si. Assim, pode tudo ser resumido pela frase encontrada no Oráculo de Delfos: "Conhece a ti mesmo". A chave do passado, presente e futuro está na pessoa, e só se pode ter noção da pessoa, não pelo o que ela sabe, mas sim por onde ela esteve (o conteúdo absorvido pela vivência).