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sábado, 30 de agosto de 2008

Política de Capa e Espada



1 INTRODUÇÃO.

A temática do presente artigo está em como uma obra cinematográfica pode ajudar a entender uma época passada. Para lançar uma luz sobre a temática da dinâmica social do século XVII, bem como a criação de personagens de ficção pode ajudar a entender a operacionalidade de alguns personagens no fluxo histórico. O real ponto objetivado é mostrar os fatos e idéias relacionadas para que com a apreensão dos dados as pessoas possam entender o percurso histórico.
Um dos pontos constantes é a revisão de atos tidos, pela História, como políticos. Cotejando com ensinamentos filosóficos para a obtenção do poder e manutenção de um Estado. Em linhas gerais, demonstrar a importância dos eventos estudados, e da própria Filosofia, estão na ordem ao vislumbrar o filme, com a devida sombra do livro que deu origem à estória.
O filme: OS TRÊS MOSQUETEIROS (The Three Musketeers, AUS/UK/USA 1993). Direção de Stephen Herek. Elenco: Charlie Sheen, Kiefer Sutherland, Chris O’ Donnell. 105 min.


2 A figura do cardeal richelieu.

A primeira pergunta, para aqueles pouco familiares com a linha histórica de poder da França, e também daquela sobre os três mosqueteiros, seria “quem é o cardeal mencionado no título deste ponto?”.
O Cardeal é indivíduo chave nos três pilares do presente artigo (fato histórico, filme e livro). No estudo dos eventos reais, ele foi o principal articulador e organizador da monarquia francesa ruma ao Absolutismo. Desempenhou suas funções de maneira devota e, assim, foi reconhecido pela casa reinante. Por seus atos uma dinastia obteve o poder e o país recebeu seus contornos.
Na imaginação do autor francês, muito das características do Richelieu histórico é mantido. Mostrado como alguém comprometido com o seu país, tenta com seus atos se pautar no que crê ser o mais benéfico para o Estado e capaz de gerar uma solidez nacional centrada na figura do monarca. Nesta mídia, ele não é pintado com o espectro extremo de preto ou branco, mas sim o cinza de um sujeito com uma agenda em mente, em que o ponderar de alternativas leva em conta um fim.
Já na ficção mais moderna ele é um dos personagens principais, o antagonista. São características, tanto na esfera literária como na visual, a de governante poderoso, frio, calculista, dominador, e ambicioso, que ofusca, sempre que a oportunidade surge, o ingênuo rei.
Como a ótica do parágrafo anterior simplifica o religioso, o resultado é simples este foi feito para que o espectador o odeie. Contudo, o histórico e o literário agem de forma a sua visão de mundo se igualar à metáfora do caleidoscópio, não de fala em filtro de ótica, mas sim em prisma de ideologias. O que emerge para aquele que já ouviu máximas de política é se “os fins justificam os meios” cabem ao eixo de condução dele. Será que Richelieu leu Maquiavel? Provavelmente sim, ele além de estadista era um estudioso e as evidências são claras ou as conhecidências são absurdas (de tão similares os nortes adotados).
A sociedade do século XVII passava de terras com um lorde que ditava as leis para um governante que monopolizava o uso da violência. A figura dos senhores locais desvanecia para a de nobres na corte de um monarca. E este resultado era o objetivado pelo homem de Deus que o item presente trata. Ao analisar como a França fez a transição deste período parece seguir os passos estabelecidos por Maquiavel, os resultados foram a unificação da legislação, a direção restou nacional (inclusive quanto a religião), a diplomacia (e a guerra) recebeu foco (limitar a influência dos Habsburgo na Europa) e o poder estava centralizado na figura do príncipe/rei.
Mesmo com todo o revelado, o cardeal permanece cardeal, em alguns elementos ele retoma o ideal de uma realidade anterior, lembra pontos medievais. Richelieu defende, em seu Testamento político, a natureza divina do monarca. Mantém em mente, a necessidade de categorias de pessoas para a grandeza da França, que o rei mesmo determinado por Deus depende de seus nobres, da sociedade de corte, e, também, do povo. Fato que será comprovado pelo monarca sucessor, Luís XIV, ao travar combate com a liga dos Absburgos, em que já sem a figura de Premier Ministre, o sucessor de Richelieu – Cardeal Mazzarino – já havia morrido e o rei desempenhava a função de chefe de Estado e chefe de governo em toda a sua amplitude, necessitou do suporte popular para manter a máquina de guerra francesa abastecida.


3 A OBRA DE ALEXANDRE DUMAS: “UMA POR TODAS...”.

O livro escrito por Alexandre Dumas, Os três mosqueteiros, é parte da trilogia conhecida como estórias de D’Artagnan. A obra mencionada é apenas o primeiro capítulo da vida do herói. As seqüências são os volumes intitulados Vinte anos depois e O Visconde de Bragelonne. Todavia, deve-se mencionar que de início D’Artagnan não é um mosqueteiro, o opúsculo narra o percurso do jovem para se tornar um e como ele forma um vínculo de amizade com três homens já mosqueteiros do rei, e por alguns tidos como os melhores.
Dumas fisga o leitor ao narrar o sonho de um jovem. O jovem vindo de uma família nobre que se encontra empobrecida consegue por seu pai uma carta de recomendação escrita pelo capitão de uma das companhias de mosqueteiros da guarda (dado o fato de serem conterrâneos).
Porém, seria tudo muito simples e é assim que o acaso se faz presente. Acaso é encontrar uma comitiva de um nobre vestido de preto e que ostenta na face uma cicatriz. As pessoas e o nobre insultam o jovem graças a cor do cavalo do mesmo. A necessidade do homem da época retumba, só o duelo limpará a honra. Derrota D’Artagnan é pilhado seu dinheiro e a carta que levaria a realização de um sonho são levados. A trama tem os primeiros traços assentados, pois o nobre é o braço direito do cardeal Richelieu, o Conde de Rochefort. Isso desencadeia as peripécias do jovem, como ele se hospeda no Hotel Treville, conhece os futuros amigos e como se liga a rainha Ana da Áustria (e cai na trama do cardeal e seus espiões, vai a Londres, foge de uma bela assassina, a luta contra aquele que é contra a França – o Duque de Buckingham – e a obtenção do posto de oficial da guarda real).
Por todo o exposto, o interessante é notar que é uma visão de uma pessoa do século XIX sobre o século XVII. A política mostrada, apesar de constar os nomes de pessoas do passado, é, em real, um reflexo (e porque não uma crítica) dos acontecimentos de sua própria época, cuja orientação diplomática desencadeará duas guerras mundiais.

4 ADAPTAÇÃO PARA O CINEMA: “... TODAS POR UMA”.

Os trabalhos de Alexandre Dumas foram adaptados várias vezes para o cinema. Todavia a que teve mais versões foi Os três mosqueteiros, e cada uma delas teve seu ponto de distanciamento com a estória original, bem como o enfoque dado, incluso, aos personagens. Porém ao analisar o filme proposto, intenta-se mostrar que é uma visão do século XX, para algo feito no século anterior ambientado no século XVII.
A versão escolhida como base foi produzida pela Disney, e de tudo feito pela empresa zela por uma visão de mundo própria, de cunho maniqueísta. A visão explicita que há a luta do bem contra o mal, os opositores estão bem definidos pelos seus defeitos e qualidades. Mas, detalhe que não pode faltar, é o momento catártico, em que, no final, o último sempre perde.
Nesta estória as aventuras de D’Artagnan são recontadas, os anseios do rapaz são mantidos, entretanto, como o afirmado sobre a ótica do produtor, delimita-se os bons e os maus. E para fazer tanto, o período histórico não fica bem estabelecido, a inferência é feita pela dinâmica dos personagens centrais. Para enquadrar o clássico de Dumas para a grande tela, simplifica-se a trama e altera alguns pontos. Os mais gritantes contrastes estão na jornada do herói (desempenhada pelos quatro amigos), a acusação de traição dirigida ao cardeal, a demissão do cardeal pelo rei (tacitamente entendida pelo soco) e a redenção de D’Artagnan (no tocante a memória de seu assassinado pai) ao duelar e matar o cruel Rochefort.
Assim, ao refletir as necessidades de doutrinar segundo premissas maniqueístas, a obra cinematográfica reflete o mundo em mudança na época (fim do século XX). Ao manter a dualidade bem e mal fica explícita a questão que acaba de ser superada, a polarização mundial que até 1990 existia. Até o ano mencionado, de um lado estava os Estados Unidos e do outro a União Soviética, em que aquele que falava era o bom e o de que se falava era o mau. A diplomacia com múltiplos participantes, que havia no período de Dumas, ainda está para ser restabelecida por aqueles que não buscam colocar um inimigo para manter a polarização falam em hegemonia de uma única potência.


5 CONSIDERAÇÕES FINAIS.

Quando se aborda temas sob a perspectiva de um filme sobre eventos históricos devem ser mantidos dois elementos em mente, o primeiro, filmes estão intimamente comprometidos com a finalidade de entretenimento, e segundo, o anacronismo, em que valores atuais são transpostos para épocas passadas e todo o conjunto de valores existente à época é substituído ou questionado (com subseqüente juízo de valor – e declarado o adotado no passado sendo equivocado).
Por fim, ao examinar tanto as posturas políticas como a narrativa delas, vê-se que o homem está comprometido como uma estória e uma história. Porque as duas estão relacionadas com ideais, e nada melhor para externar uma ideologia do que a narrativa, e, principalmente, o que a narrativa tenta ocultar. O cardeal ao agir mostra como uma pessoa pode oficiar para a força do seu país, como ao usar de idéias (filosofia) se pode moldar a história, não para trás, mas sim para frente.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. 3. Ed. São Paulo: Brasiliense, 1995.

DUMAS, Alexandre. KUPSTAS, Márcia. Três Mosqueteiros. São Paulo: FTD, 2003.

GILBERT, Adrian. Enciclopédia das Guerras: conflitos mundiais através dos tempos. São Paulo: M. Books do Brasil Editora Ltda, 2005.

HAHN, Fábio Ancré. A Perfeição do Político no Pensamento do Cardeal Richelieu (Revista Varia Scientia, v. 05, n. 09, p. 205 – 208). Cascavel: Unioeste, 2005.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Editora Revista dos tribunais, 1997.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Jardim dos Livros Editora, 2007.

PARKER, Geoffrey. Cambridge Ilustrated History of Warfare. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.

PERRY, Marvin. Civilização Ocidental: uma história concisa. 2. Ed. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2002.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Outro ângulo para JC.


Tal como a postagem referente ao filme “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, a história do filme em questão (“A Última Tentação de Cristo”, de Martin Scorsese) é bem conhecida pelos cristãos, ou pelo menos deveria ser para aqueles que assim se dizem. Porém com um detalhe o roteiro não é fiel à narrativa bíblica.
A estória de “A Última Tentação de Cristo” objetivou, e isto fica bem claro no início do filme dado o aviso que é apresentado, ser uma adaptação do livro de Nikos Kazantzakis. O livro e o filme, ambos possuidores do mesmo título, não seguem o evangelho. Assim, invalida a afirmativa do conhecimento da estória feita no primeiro parágrafo. Disto, tem-se que a linha da trama não segue o cânone do Novo Testamento, pelo contrário traz à baila a liberdade de Jesus.
Em breves linhas o filme apresenta Jesus, inicialmente, como o carpinteiro responsável pela convecção de cruzes para a execução dos mandados de um território ocupado por Roma. Tal trabalho mina o espírito do personagem, e faz duvidar das vozes que ouve (e atribui a Deus). Desprezado pelos conterrâneos, só o militante Judas acredita nele e, com isto, rejeita a missão dada pela célula revoltosa de assassinar o traidor que ajuda a causa romana. Com a peregrinação, a conversa com João Batista e as tentações de Satanás, o homem se aproxima do ideal de Cristo. Com a dúvida no coração, Jesus busca suporte na figura de Judas. Todavia, a trama segue para o desfecho esperado, a ceia, as acusações e a pena na cruz. A reviravolta se dá com a imagem que salva Jesus da morte e revela a idéia oposta, ele não é messias, cristo e filho de Deus. Deste ponto, Jesus casa com Maria Madalena até a morte dessa e segue os rumos da vida com a filha de Lázaro. A paz deste só é perturbada com a aparição de Paulo, que conclui ser a estória e ideal de Jesus Cristo maior que o homem real. Perto da morte a imagem que o salva mostra ser Satã, a crise se instala em sua psique, Jesus em meio aos caos volta ao lugar onde era para ter morrido e pede a Deus que os desígnio sejam cumpridos e ele morra para a humanidade viver... e Jesus volta para o momento da crucificação e cumpre o esperado.
Os olhos filosóficos incidentes na película revelam conceitos como dever, sofrimento e verdade.
No quesito dever se remete aos ideais filosóficos da era helênica, onde se espera que o bom homem se anule frente à sua missão de vida. Porém este é melhor abrigado na questão sofrimento e verdade, que aparecem no conflito narrado por Arthur Schoppenhauer em vontade e desejo. A vontade de viver desse filósofo é a força que impulsiona o home, mas esta é permeada por paixões. E preso ao desejo o homem vive em um mundo de objetos, logo, restando atormentado por isso, mas é o bastante para fazer o ser humano perseverar.
Todo o mencionado no parágrafo anterior é sentido pelo Jesus da produção cinematográfica, até que frente à decepção do esvaziamento de sua vida (cedeu a tentação do diabo), ele supera o modelo de Schoppenhauer e elege o propósito estóico do dever (“E está cumprido”, como afirma o Cristo retornado à cruz).

JC no Cinema: Mensagem POP



A história em questão é bem conhecida pelos cristãos, ou pelo menos deveria ser para aqueles que assim se dizem. Mais do que um meio de difundir uma fé, a narrativa bíblica, ao se abstrair o ponto voltado para a religião, é um veículo de ensinar valores morais ou informar um evento o qual o escritor considerou relevante para ser passado adiante, digno de ser transmitido para as próximas gerações.
A estória de “A Paixão de Cristo” teve o intento, conforme afirmado pelo diretor e co-roteirista Mel Gibson, de ser o mais fiel ao espírito do evangelho possível. Acrescentando elementos esclarecidos pela História (e os métodos de pesquisa arqueológica moderna). Disto, tem-se que a linha da trama segue o cânone do Novo Testamento, em especial o livro de João, no período compreendido pelo momento posterior à Última Ceia até a Ressurreição.
Em breves linhas o filme apresenta o homem Jesus sendo tentado por uma forma andrógina e humanóide que representa Satã. Dos percalços surge a força e determinação de Jesus, o que resulta em um confronto com Caifás (e daí a acusação de blasfêmia pela pronuncia do nome divino). Da série de problema de jurisdição ente hebreus (representados por Herodes) e romanos (sob a direção de Pôncio Pilatos). Ao fim, pela pressão do clero judaico cabe aos romanos a sentença e execução da pena de Jesus. Em uma última manobra, por influência de sua esposa, Pilatos tenta uma saída com o perdão do feriado (o povo poderá libertar Jesus ou outro indiciado – Barrabás). O povo corrompido pelo dinheiro de Caifás liberta Barrabás e Jesus é crucificado. Mas o caminho da crucificação (Via Cruxis, em latim), bem como a prática da tortura em momento anterior – o inquérito de apuração de crime, é o marcante para a audiência. Marcante pela violência e as cenas de tortura explícita. Porém o filme termina com a mensagem da superação da carne, a ressurreição.
Agora a pergunta é: Como isso se relaciona com Filosofia? Em várias formas. Pois há a aceitação do dever característica epicurista e o existencialismo cristão (existência justificada pelo divino) de Kierkegaard. Existe também, e especialmente, a dualidade platônica que posteriormente é recebida pelos medievais da escola Patrística. Em que o Sumo Bem (Deus) é a idéia perfeita e o carnal é transitório, imperfeito e que cabe a cada pessoa almejar a Deus. Mas tanto Jesus como o filme fazem algo incomum no mundo da Filosofia, eles trazem uma resposta de como atingir os objetivos da humanidade, e esta resposta é o amor.


segunda-feira, 10 de março de 2008

Antígona

Tal como ocorrido com a análise da peça "Édipo Rei", a proposta de analisar a peça surgiu com uma encenação em classe. Novamente, não cabe aqui criticar a produção dos colegas, pois é muito fácil ser arquiteto de obra pronta (a crítica pela crítica), difícil é oferecer o corpo às pedras. Então o presente serve para resumir a questão levantada pelo autor da mesma (Sófocles) em mais uma de suas obras e cotejar com a Filosofia. Neste último ponto, o vislumbrar a tragédia com relação aos pensamentos filosóficos, vale ressaltar que tem de ser levado em conta a época em que foi feita e os ideais vigentes na sua gênese (senão se pode incorrer em imputar construções que não haviam à época).
Antígona também é uma obra teatral de gênero tragédia, escrita por Sófocles. A presente peça é a terceira parte da saga de Édipo e sua família, em que a primeira etapa se dá em "Édipo Rei", a segunda "Édipo em Colono" e a terceira, e última, "Antígona". Tal qual as criações anteriores, sua idealização foi para performances a céu aberto em locais da Polis, com o advento da imprensa (muitos séculos depois) a forma impressa foi possibilitada, e configura a maneira de maior difusão de sua estória atualmente.
A personagem principal, Antígona, é filha de Édipo e Jocasta (esposa e mãe de Édipo). Irmã de Ismênia, Etéocles e Polinice. Na primeira etapa de sua existência, em "Édipo Rei" esta é uma jovem que presencia a desgraça do pai e recebe deste conselhos no ápice do drama existencial do uma vez rei. Já no segundo momento, em "Édipo em Colono", a heroína serve de guia para o pai cego e com este permanece até o momento da morte dele. No trato da terceira fase da grande tragédia cabe um relato mais pormenorizado.
O desenvolvimento da estória segue o caminho do retorno de Antígona à Tebas. Com o banimento e morte da figura paterna, ela necessita lutar contra a autoridade opressora do novo rei e seu tio, Creonte. No seu retorno, esta encontra seu irmão, Polinice desacreditado e rotulado de traidor (dada a disputa de seus irmãos pelo trono). A pena de traição impossibilitava o enterro do falecido, bem como os ritos de luto apropriados. Por amor a seu irmão esta se rebela contra o decreto real e vela o corpo do irmão, mas não consegue a permissão de enterro. Com muitas disputas e articulações, o filho do Rei, Hêmon, consegue a autorização, porém é tarde, Antígona (seu amor e prometida esposa) cometeu suicídio. Este, transtornado, também tira sua vida. A reação em cadeia não termina, Euridice, mulher de Creonte, ao saber do falecimento do filho por reflexo dos atos do marido, também se mata. Creonte é acometido pelo terror, fruto de sua própria arrogância, intransigência e autoritarismo. Com a falta de foco nas suas ações este percebe que pôs a cidade em perigo, é o ato que coroa a danação dirigida a Creonte.
Ponto que chama a atenção é a forma de como Creonte conduz o Estado, e destaca-se a frase: "Será que não percebem que o Estado é de quem manda?" Em ser a inflexão de caráter uma fonte de destruição. E indesejável para o dirigente da nação.
Por fim, as lições da peça no tocante à Filosofia se encontram principalmente voltadas ao conflito de interesses de personagens e disputa de poder. Entretanto, dos elementos tratados, a agonia, o amor e a moral, vê-se que são conceitos trazidos à baila para tecer um ideal de relacionamento interpessoal pretendido, e há, incluso nesta peça, também, o fim pedagógico das obras gregas (em que os valores morais desejáveis são ressaltados e os indesejáveis apontados e criticados).

sábado, 8 de março de 2008

Édipo Rei

A proposta de analisar a peça surgiu com uma encenação em classe. Não cabe aqui criticar a produção dos colegas, pois é muito fácil ser arquiteto de obra pronta (a crítica pela crítica), díficil é oferecer o corpo às pedras. Então o presente serve para resumir a questão levantada pelo autor da mesma (Sófocles) e cotejar com a Filosofia. Neste último ponto, o vislumbrar a tragédia com relação aos pensamentos filosóficos, vale ressaltar que tem de ser levado em conta a época em que foi feita e os ideais vigentes na sua gênese (senão se pode incorrer em imputar construções que não haviam à época).
Édipo Rei é uma obra teatral de gênero tragédia, foi escrita por Sófocles e a primeira apresentação ocorreu próxima do ano de 430 a.C., sua idealização foi para performances a céu aberto em locais da Polis, em que com o advento da imprensa (muitos séculos depois) ganha a forma impressa muito difundida atualmente.
O desenvolvimento da estória segue o liame da tentativa de solucionar o evento da morte do rei que precedia Édipo no trono (Láio). Todavia toda a trama já estava delimitada antes do ínicio dos eventos abordados no trabalho de Sófocles. Começa a apresentação da trama com Édipo já rei, e a sua cidade de Tebas é atacada por uma praga. Édipo que já havia derrotado a Esfinge com seu intelecto crê que pode solucionar o problema. O sábio Tirésia aconselha a não tentar, mas a vaidade fala mais alto. Com a busca pela resposta oráculos são consultados e velhas previsões são trazidas a tona. Na solução das previsões que redundam no caos da cidade, o rei descobre seu real passado. Com as conclusões, a mãe/esposa de Édipo se mata, o terror engloba o herói e este crendo indigno da morte se cega.
Determinismo é um ponto que já permeava a cultura grega desde o surgimento das figuras das Parcas (seres que no nascimento tecem a linha da vida de cada pessoa, ali contendo os feitos e desgraças da existência desta). Este aspecto se encontra na obra, pois mesmo com a fuga de Édipo de Corinto para Tebas, este realiza o seu destino, todos os passos tomados só servem para concretizar a previsão. O problema que surge do determinismo é a questão sobre a existência de livre arbítrio (liberdade), mesmo em toda a cadeia de eventos há ainda um esboço de escolha para as personagens. Isto é verificado no tocante a Laio por ser o oráculo a ele dirigido constante dos seguintes termos: "Se Laio tiver um filho, o filho o matará e desposará a própria mãe". A opção, a escolha, foi dada a Laio, se este escolher ter um filho e se o tiver a tragédia recai sobre sua casa. Há o condicional, há a parcela de possibilidade, remota, mas há.
A metáfora dos olhos. Aqui se vê outro ponto da mentalidade grega. Os olhos são o veículo do conhecimento do mundo. Mesmo com filósofos como os Pré-socráticos os olhos são o meio para tentar desvendar o mundo, ou seja, ligados ao conhecimento, à sabedoria. Ao se cegar Édipo, que antes se considerava o solucionador de charadas, admite nada saber sobre si mesmo, assim indigno da vista, a via do conhecimento.
Por fim, as lições da peça no tocante à Filosofia se encontram, além do determinismo e das implicações da visão, voltadas ao conflito de interesses de personagens e disputa de poder (elementos de Filosofia Política). Entretanto, não são elementos tratados há fundo, pois a segmentação da Filosofia Política como ramo da Filosofia só se dá séculos mais tarde, só há o famoso fim pedagógico das peças gregas, em que os valores morais desejáveis são ressaltados e os indesejáveis apontados e criticados.

O Estoicismo de Marco Aurélio no filme "Gladiador"


O filme "Gladiador" foi uma tentativa de Hollywood em reavivar um estilo de cinema deixado de lado por anos, os Épicos. Para gerar uma estória coerente e cativante, os roteiristas se valem da máxima expressada ao Padre Merin (de "O Exorcista"), em que a mentira mistura com a verdade é de difícil detecção. Assim, o enredo da obra vislumbrada mistura fatos históricos com fictícios, e tudo chega apenas a um lugar: a criação de um novo clássico, um novo épico.
Ponto de enfoque aqui intentado com relação à película é como tratam o Estoicismo. Com isto, o desenvolvimento adotado será apresentar as idéias gerais desta escola de pensamento, como os ideais estóicos se encontram nas Meditações (obra escrita pelo Imperador Marco Aurélio), e a maneira pela qual a estrutura cinematográfica analisada traz a figura de Marco Aurélio, bem como seus ensinamentos.
Estoicismo foi uma escola filosófica da Era Helenística (inaugurada por Alexandre, O Grande) recepcionada pela tradição romana que pregava ser o logos (razão) só alcançado pelo pensamento claro e descompromissado. O modo de conseguir um raciocínio claro era pelo auto-controle, apenas pela contenção das vontades, pela superação dos sentimentos destrutivos, poderia ser encontrada a verdade e a felicidade. Destaque, além do controle emocional, é a ênfase dada a vida nas cidades (vida em comunidade, o cosmopolitismo), em que as pessoas deviam viver em irmandade, reconhecer os outros como irmãos independente de origem (nisto incluindo até os escravos). Ícone conceitual também presente nesta linha de pensamento é o determinismo, em que a vontade do sujeito deve se adequar ao mundo em que vive e sua função na mecânica da realidade.
As idéias contidas nas Meditações de Marco Aurélio surgiram com linha mestras para o próprio escritor usar como ferramentas na aproximação dos objetivos estóicos. A questão central da obra reflete em muito os intentos da escola a que pertence por focar no controle emocional e futilidade do materialismo. Frase que coroa os objetivos é: "Nunca considere alguma coisa como boa se trai a verdade ou te faz perder o senso de vergonha ou te faz mostrar ódio, suspeita, má vontade ou hipocrisia ou ainda um desejo de coisas belamente feitas por detrás das portas".
Já no contexto de "Gladiador" o Imperador Marco Aurélio se mostra muito menos estóico do que o real governante-pensador romano. Um dos elementos que corroboram tal afirmativa é a preocupação em como será lembrado depois de sua morte, antítese à escola a que pertence, pois nela consta o determinismo, em que cada indivíduo está no mundo para um propósito e não se deve preocupar com isto (deve até achar a felicidade com esta condição). O momento em que é externado o ideal estóico se encontra no diálogo do pai Marco Aurélio com o filho Cômodo sobre a lista de virtudes, lista em que figuram valores como Sabedoria, Justiça, Fortitude e Temperança. Ressalta-se Temperança, o controle dos impulsos, real alicerce do estoicismo.
De todo o exposto, o estoicismo é apenas um traço sutil na estória de "Gladiador" porque há a preocupação constante com a imagem a ser deixada para o futuro, bem como a vontade superando os deveres. O personagem que mais mostra as cores da escola estóica é Maximus, depois das provações contidas no filme, quando, finalmente, este aceita o trabalho que lhe é proposto no início (entregar o poder romano imperial novamente para o povo/Senado), seu dever, sua função no mundo, e com o contentamento pela execução da tarefa.